Mahler no Municipal: Reflexão sobre vida e morte - EntornoInteligente

Jornal do Brasil / A temporada oficial do Theatro Municipal será aberta neste sábado com a execução de uma obra monumental, a Segunda Sinfonia, em Dó Menor – “Ressurreição”, de Mahler. Tudo é grandioso nesta sinfonia, desde os cinco movimentos (geralmente sinfonias têm quatro movimentos) até o tamanho da orquestra, que nesta apresentação contará com 120 músicos da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal e da Orquestra Sinfônica Brasileira, além de 95 cantores do Coro do Theatro Municipal e da participação das solistas Denise de Freitas (mezzo-soprano) e Flavia Fernandes (soprano). A apresentação traz uma surpresa, a inclusão das primeiras bailarinas Ana Botafogo e Cecília Kerche, com coreografia criada por Marcelo Misailidis. Tobias Volkmann, maestro titular da Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal desde 2016, fala sobre o significado de reger esta peça: “Poder realizar uma das maiores obras do repertório universal –  e me identifico muito com sua produção – é um enorme desafio artístico e humano que assumi com alegria e empenho. O desafio artístico está implícito nas dimensões da obra e nos recursos exigidos pela partitura. O desafio humano que vislumbro é a tentativa de, através desta poética, simultaneamente humanista e espiritual proposta por Mahler, estimular a reflexão de nosso público e de nossos artistas sobre nossa sociedade atual”.

Mahler mostrou alguma resistência em traduzir a sinfonia “Ressurreição” em termos literários, tendo dado diferentes versões em distintas ocasiões. Pressionado, o compositor falou de forma vaga que era uma reflexão sobre vida, morte, ressurreição e sua a experiência interior de redenção na direção a Deus. Vale lembrar aqui que muitos compositores criam histórias, evocam cenas e sentimentos que associam à sua música. A isto se chama de música programática; um exemplo é “Quadros de uma exposição”, em que o compositor Mussorgsky descreve musicalmente um passeio por uma exposição de quadros. O contrário de música programática é música absoluta, à qual não se associa qualquer história ou referência. É a música pela música, como a maioria das sinfonias de Beethoven. 

Muitas vezes a descrição é dada à revelia do compositor ou sugerida por conotações depreendidas do próprio discurso musical. É o caso da Sexta Sinfonia de Beethoven, a “Pastoral”, conhecida por descrever ambientes campestres sugeridos nos títulos de seus movimentos: ‘Despertar de sentimentos alegres na chegada ao campo’, ‘Cena à beira de um regato’, ‘Dança campestre’, ‘A tempestade’ e ‘Hino de ação de graças dos pastores após a tempestade’. Esses nomes induziriam a classificar a peça como programática, não fosse o próprio Beethoven ter afirmado ser “inútil uma descrição” e anexado à partitura a indicação de que a obra era mais expressão de sentimentos do que de imagens. 

O concerto de abertura da programação do  mais importante teatro do Rio de Janeiro tem a participação do Coro e da Orquestra do Municipal e da Sinfônica Brasileira É comum a discussão, assunto que dá pano para manga aos musicólogos, sobre se uma obra é de caráter programático ou absoluto, sobretudo quando o compositor deixa dúvidas quanto a uma possível descrição de sua peça. No entanto, os textos cantados nos dois últimos movimentos da “Ressurreição” corroboram a presença de um enredo ou, no mínimo, a sugestão de imagens reafirmando assim o caráter programático da sinfonia e permitindo ao ouvinte associar algo mais por trás da música. Ao final, a impressão que fica é que a beleza dessa obra-prima transcende a busca de um significado preciso, deixando as indagações existenciais, inspiração constante do compositor, ao fundo da espetacular trama musical.

Alguns fatos sobre a Segunda Sinfonia Mahler começou a escrever a Segunda Sinfonia em 1888. No primeiro movimento (Allegro majestoso), que chamou de “Todtenfeier” (Celebrações fúnebres) buscou expressar o mistério da morte e incluiu uma longa marcha fúnebre. Passagens menos rigorosas, com melodias quase alegres sugerindo que algo pode transcender a angústia intercalam-se agitadamente numa batalha entre o sombrio e a possibilidade de uma existência além desta. Mahler considerava possível executar este movimento independentemente dos outros. Tanto é que, em 1896, o apresentou sozinho em Berlim com o título de “Todtenfeier”. 

O Andante moderato sugere nostalgia com a presença de elementos que dão ares oníricos ao segundo movimento, como na sessão final, em que mistura melodias sonhadoras a pizzicatos e harpas tocando as notas finais. Mahler descreve o Scherzo como “movimentado, mas fluindo tranquilamente”. 

Utiliza neste movimento a melodia do Lied que compôs para “O sermão de Santo Antônio de Pádua aos peixes”, cujo o texto é uma versão de Santo Antônio pregando aos peixes que o escutam com todo respeito, mas, ao fim, demostram nada terem compreendido. Sem usar o texto, esse movimento retém a ironia desse famoso sermão. 

O quarto movimento, “Luz primordial” (Muito solene, porém simples), é o primeiro após a Nona de Beethoven a introduzir vozes em uma sinfonia. O poema, extraído da “Trompa mágica do menino” (Des knaben wunderhorn) foi musicado anteriormente por Mahler e sugere simplicidade na crença e fé.

Luz Primordial 

“Ó rosa vermelha! 

O homem encontra-se na maior miséria! 

O homem encontra-se em grande dor! 

Como eu gostaria de estar no céu. 

Eu vim por um largo caminho: 

Chegou um anjo e quis me afastar. 

Ah não! Eu não serei afastado! 

Eu venho de Deus e retornarei a Deus! 

O bom Deus me dará um pouco de luz, Que me iluminará até a vida eterna!”

O último movimento, em tempo de Scherzo, é, segundo Mahler, uma visão do Juízo Final. Durando quase tanto quanto os quatro anteriores juntos, retorna à reflexão sobre a morte, como no primeiro movimento, mas adicionando elementos do segundo e terceiro. Como na Nona de Beethoven, coro e solistas cantam ao final. Ouve-se então um grandioso hino sobre o tema da ressurreição, com o poema de Friedrich Klopstok, ao qual Mahler acrescentou um trecho de sua autoria. Uma ressurreição não exatamente como no cristianismo, mas no sentido de um renascimento do indivíduo como imortal.

Friedrich Klopstock 

“Ressuscitará, sim, O meu pó ressuscitará Após um breve repouso! 

A vida imortal Será dada por aquele que te chamou! 

Para florescer novamente estais semeado! 

O Senhor da colheita vai recolher seus feixes de nós, Nós, que morremos!”

Gustav Mahler 

“Crê pois, meu coração, crê: Não irás perder nada! 

Alcançou aquilo que desejaste, Aquilo que amaste Aquilo por que lutou! 

Ó crê: não nasceste em vão! 

Não viveste nem sofreste em vão! 

O que aconteceu tem de passar 

O que passou deve ressuscitar! Não trema mais!

Prepara-te para viver! 

Ó dor, que penetra em tudo Já te fugi! 

Ó morte, que conquistas tudo, Agora foste derrotada! 

Com asas que ganhei, Na dura batalha do amor, levantei voo Para a luz que nenhum olho penetrou! 

Com as asas que ganhei, levantarei voo Morrerei para poder viver! 

Ressuscitarei, sim, Meu coração ressuscitará em um instante! 

Tudo o que sofreste, Te levará a Deus!”

SERVIÇO

Segunda Sinfonia 

“Ressurreição”, de Gustav Mahler 

Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Praça Floriano s/n – Cinelândia; Tel.: 2332-9191)

 Regência – Tobias Volkmann 

Regência do coro – Jésus Figueiredo 

Coro e Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal e a Orquestra Sinfônica Brasileira, como convidada Mezzo-soprano  Denise de Freitas e soprano Flavia Fernandes 

Participação especial das bailarinas Ana Botafogo e Cecília Kerche 

Sábado, 31/3, às 19h30; dom, 1/4, às 11h30

 Ingressos: Sáb, de  R$10 a R$ 96; dom., a R$1 (promoção “Domingo a um real”

* Especial para o JB

Mahler no Municipal: Reflexão sobre vida e morte

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