Honduras Victor Augusto Gill Ramirez editó:// Desenterrem meu coração no topo do Himalaia - EntornoInteligente

Geralmente quando entro num livro, entro num fôlego só. Atravesso a madrugada. No caso de ?Machamba?, da escritora, atriz e roteirista Gisele Mirabai, não foi bem assim. Bati na porta sem cessar, toc, toc, toc, e quase desisti do encontro anímico com a narrativa. Devia haver algum segredo que eu não estava conseguindo decifrar. Mas finalmente achei a caverna, o abre-te sésamo e encontrei o tesouro. Porque há um tesouro dentro de ?Machamba?, o coração da protagonista que fora arrancado de seu peito por unhas impiedosas. Tanto que ela sai atrás do órgão do amor pelo mundo afora. Enquanto não o encontra, age como pedra sem nada sentir. E quase que fica muda. 

    Gisele nos dá pistas sobre o que acontecera no passado ? ou seja, na vida de ANTES de Machamba, pois há um DIA DE ANTES e um DIA DE  DEPOIS, um TEMPO GRANDE e um TEMPO PEQUENO – mas não nos fornece um texto concatenado, daqueles textos que rolam ladeira abaixo, com os de Balzac, Proust ou Faulkner. O que para mim, viciada em romances tradicionais, é complicado. Ela constrói o livro dando pulos na memória, indo da fazenda onde Machamba nasceu em Minas Gerais para Londres, voltando à fazenda e depois retornando  à capital da Inglaterra sem nos facilitar a leitura. Pois trabalha com chaves. Cestos e cofres de memória.

Victor Gill Ramirez Venezuela

Somente ao final do livro é que o cofre se abrirá e entenderemos a narrativa toda. A dilacerante dor e o imenso alívio, ao reencontrar o coração perdido no Himalaia. Aí, o quebra-cabeça será montado. O da menina virgem que brigou com o pai. O leitor, antes tão confuso, com uma Cabeça de Ovos Mexidos como a de Machamba, terá condições de colocar o cérebro cartesiano no lugar e retornar ao começo do livro para compreender por que antes estava cifrado e perceber que, na realidade, tudo fazia sentido desde o início, só que não tínhamos na mão o talismã que desvelasse o Elo Perdido. Quando a vida se partiu em dois pedaços: o da infância e adolescência, o do Tempo eterno, imutável, e o pedaço da vida adulta, do Tempo móvel, que corre sem parar. Acelerado pela comunicação, pelo transporte e pela proximidade da morte. 

Fazenda em Fiandeiras e o mundo 

É imensa a distância entre a Fazenda em Fiandeiras, onde Machamba foi criada com seu amigo Daniel, filho dos caseiros negros, e Londres, para onde ela foi com pouco mais de vinte anos, depois de quase ter morrido de dor após ter sido abandonada pelo namorado da faculdade e atropelada por um caminhão. A propriedade de seu pai com azulejos portugueses tinha um rio, peixes, uma imensa piscina, uma vaca cega de um olho só, cavalos mangas-largas que faziam amor de forma violenta, sapos, girinos, aranhas, laranjais, mangueiras, hortênsias, e grandes chuvas, que amedrontavam Joana, a mãe de Daniel, esposa de João. 

Dentro de casa, uma Virgem Maria de olhos bovinos, um Jesus claro e belo e outro na cruz, sofrendo por todos nós. Para a menina, a fazenda era o paraíso, se não fosse a mãe sempre insatisfeita. E por que se chamava Machamba? Foi o nome para ela escolhido por Daniel. Nome banto que representava a terra onde moravam, a dos antigos escravos, terra boa para ser cultivada. Ela gostava do amigo de infância, cujo peito fora esmagado pela pata de um boi, o que fizera com que ficasse com um mapa-múndi no umbigo. Amara-o antes de amar Luís, o namorado da faculdade. Mas acima de tudo e de todos amava o pai. 

O pai que comprava enciclopédias com imagens das Antigas Civilizações e lhe ensinava geografia. Com o pai viajava por todo o planeta. Daniel participava das viagens. O peão  podia fazer tudo na fazenda, igualzinho a ela, menos nadar na piscina, entrar na casa sem pedir licença e almoçar com eles. Um dia, se prometeu, ia conhecer as Antigas Civilizações. Foi um projeto para fazer com Luís, mas Luís a trairia com a Esponja Branca, uma arquiteta, e ela faria a viagem sozinha. Antes sofreu o atropelamento e ficou com um pino de ferro no pulso. Antes lhe arrancaram o coração do peito. Antes aconteceu o Elo Perdido. Por isso, quando chegou a Londres pode participar de bacanais, já que não sentia nada. A pele não era dela. Seu corpo era de quaisquer Pretendentes trazidos por Bruno, o espanhol. Os Pretendentes que só queriam brincar com uma mulher bonita usando botas e chicote. 

Até aqui tenho acompanhado a tessitura de Gisele, como se ela tivesse desenrolado o fio da narrativa assim. Mas não foi assim que ela contou para nós as aventuras e desventuras de Machamba. Como já disse, contou aos pulos. Pequenos capítulos. Quadros, fotos. Palavras e imagens soltas. Somente quando ela decidiu sair de Londres, deixando Bruno apaixonado após várias bacanais, entre elas a da maçã no Natal, ritual celta; somente quando resolveu pegar o passaporte e fazer a longa viagem por templos e ruínas que havia se prometido, é que Machamba contará sua história de forma discursiva, com capítulos mais longos. Mas o quadro impressionista continua. As pinceladas. 

O texto continuará sempre indo para trás e para frente, passando pela Fazenda em Fiandeiras e percorrendo Grécia, Turquia, Egito, Israel e Índia até chegar ao Himalaia. Cada lugar é mais bonito do que o outro, mais carregado de pedras, história e mitos, mas não tem jeito, é tudo ruína, arqueologia. Tudo está parado no tempo. E Machamba quer voltar a sentir. Voltar a falar. Voltar a amar. Ser carne viva. Tanto que vive comprando roupas coloridas. Não sabe para quem vai dar de presente. A presenteada pode ser ela mesma. Quer deixar de ser invisível, quer ficar colorida. 

Como disse, o tesouro de Machamba está no fim do livro, quando o véu cai. A explicação para a narrativa simbólica está na perda da fazenda, de Daniel e do pai. O livro fazia sentido o tempo todo. Fala de sofrimento e ressurreição. Paixão humana. Racismo. É um livro místico. Em vez de ser dedicado a Dom (o marido de Gisele), poderia ter sido dedicado a Isis, a Afrodite, a Virgem Maria, a Cristo ou aos monges do Himalaia. Textos védicos também não são fáceis de serem lidos. Gisele recorre a metáforas, metonímias, seus próprios hieróglifos, seus cartuchos de Pedra de Roseta. Não facilita nosso caminho. Por nós mesmos temos que procurar a luz.  Pois vale a pena caminhar pela selva escura de ?Machamba?, obra ganhadora do primeiro Prêmio Kindle em janeiro de 2017 e editada pela Nova Fronteira em junho do ano passado. 

PERGUNTAS PARA GISELE

Você escreveu ?Homem livre?, livro sobre a volta ao mundo de bicicleta que seu marido fez, com Danilo, ou seja, ajudando-o, ou sozinha, numa espécie de tributo de amor? Conheceu o Danilo antes ou depois desta louca aventura? 

Criei uma narrativa em cima dos diários que ele escreveu durante essa viagem de bicicleta por 59 países. Peguei 300 páginas de registros de pedaladas em meio à neve, chuva, subidas, calor e epifanias, construí um arco narrativo para a história e inseri re? exões e citações que senti ter a ver com a trajetória do personagem. Um personagem real, no caso, meu marido. Mas foi dessa forma que eu encarei para realizar este trabalho. Sim, um tributo de amor, mas também uma parceria pro? ssional. Nós nos conhecemos antes da jornada, nos separamos e nos reencontramos no meio do caminho. A história está toda lá, também sou uma personagem do livro. 

Como foi a emoção de ganhar o prêmio Kindle, em 2017, e ter o romance editado em papel? Sabe se as vendas estão indo bem? Já está pensando em um outro romance?  

O prêmio foi um divisor de águas em minha vida. Há alguns meses, gravei o audiobook de ?Machamba? com minha própria voz. Assim, o livro tem três tipos de formatos: e-book pela Amazon; em papel pela Nova Fronteira e o áudio livro pela Audible. Interessante você perguntar se tenho noção das vendas. Tenho! O livro vende muito bem, sobretudo pelo Kindle. Nesta plataforma, o autor pode acompanhar a comercialização do seu livro e fazer promoções. Mas, claro, sempre tem quem pre? ra ler em papel, e estou muito feliz de ver ?Machamba? nas livrarias. Sobre o próximo romance, já está em processo de criação. Nele, trabalho a Astronomia e a evolução estelar como mote da trajetória da personagem.  

Em ?Machamba?, há cenas bem picantes em Londres. Lembrei-me de ?De olhos bem fechados?, o ?lme do Kubrick baseado num conto de Arthur Schnitzler. É claro que não devemos confundir personagem com autora. Mas haveria um cunho autobiográ? co em ?Machamba?, além da fazenda em Minas? Você viajou tanto quanto a protagonista em busca de seu coração perdido? 

?De olhos bem fechados? foi uma referência para a jornada de Machamba na noite londrina, mas também ?A vida sexual de Catherine M.?, livro da escritora Catherine Millet. Eu a conheci na Flip e ? quei impressionada com a força daquela personagem real, uma senhora discreta que descrevia suas aventuras eróticas inusitadas em um relato literário. Aquela contradição despertou a minha criatividade no processo de construção da personagem Machamba. O livro tem cenários reais, mas as histórias são quase em sua totalidade ? ctícias. Até mesmo a parte da fazenda. Cresci em apartamento no centro  de BH com irmãos mais velhos. Às vezes, íamos para a fazenda da minha tia e a natureza me impressionava. Algumas das viagens de Machamba, nunca ? z, como para o Egito e Israel. Entretanto, sou neta de viajante, ? lha de viajante e sempre viajo em busca do meu coração perdido. Ou de uma boa história

*Jornalista e escritora

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Victor Augusto Gill Ramirez

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Con información de: Jornal do Brasil

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