Água de açude tem toxinas perigosas - EntornoInteligente

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“Ocorrência de cianobactérias perigosas na água potável de uma região severamente impactada pela seca na região semiárida” é o título autoexplicativo do estudo, publicado este mês no respeitado periódico “Frontiers in Microbiology”. Os pesquisadores — de Rio de Janeiro, Paraíba e São Paulo — coletaram água de cinco açudes. Todos na região metropolitana de Campina Grande, na Paraíba. O maior deles, Boqueirão, fornece água para cerca de 1 milhão de pessoas em 19 municípios do sertão. A coleta foi realizada entre setembro e outubro de 2016, num dos piores períodos da seca. Boqueirão chegou a menos de 3% de seu volume na ocasião.

— Encontramos nessa água concentração alarmante de cianobactérias e das toxinas que elas produzem. Isso torna a água imprestável para consumo humano. Testamos a água em embriões de peixes e 60% deles morreram. Houve uma incidência de 60% de malformações. Deformações no coração, na coluna, na pigmentação, na boca. Danos no fígado e complicações neurológicas. É um alerta de que a água precisa de monitoramento, principalmente nos períodos secos ou quando há muita poluição. O tratamento convencional não elimina as cianobactérias e as toxinas, presentes no esgoto — explica o coordenador do estudo, Fabiano Thompson, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Peixe não é gente, mas seus embriões são considerados um bom modelo para testar a toxicidade das cianobactérias. “Eles são um indicador do que pode acontecer”, observa o cientista. As cianobactérias são micro-organismos que proliferam com o calor em água rica em nutrientes, como fósforo. Os nutrientes vêm do esgoto lançado nos reservatórios. Com a seca, o volume de água diminui e os nutrientes ficam concentrados. O fundo dos açudes se transforma numa sopa tóxica de característico tom azulado, resultado da proliferação das cianobactérias. Hoje, com as chuvas e a água da transposição do São Francisco, há um pouco mais de água no Boqueirão, que está com 16,61% de sua capacidade. Mas água de má qualidade é um problema crônico e não só na Paraíba , destaca Thompson.

A ORIGEM DE MUITOS MALES DO BRASILEIRO

A falta de saneamento está por trás de boa parte das doenças infecciosas que afetam o brasileiro. Sejam diarréias e hepatites, devido ao consumo de água contaminada. Ou dengue e zika, por meio dos mosquitos que proliferam no esgoto. O estudo foi realizado para investigar uma possível hipótese para a maior frequência de microcefalia e outras malformações associadas à zika em bebês do sertão. A médica Adriana Melo, uma das maiores especialistas em zika no mundo e pioneira no estudo da doença, suspeitava de uma associação com água de péssima qualidade da região.

— Não podemos dizer ainda que há uma relação. Os dados são preliminares para isso. Mas podemos dizer que a água testada não tinha qualidade para consumo — frisa Melo, uma das autoras do estudo.

Thompson acrescenta que as toxinas das cianobactérias podem se acumular no organismo e causar danos progressivos ao DNA. “Ninguém sabe o que acontece com o organismo de pessoas submetidas por décadas a beber água com toxinas. Podem ocorrer danos sem que a verdadeira causa, as toxinas, seja identificada. Podemos estar diante de uma epidemia oculta”, observa Thompson. O primeiro estudo a documentar o envenenamento por cianobactérias associado aos reservatórios secos foi realizado pelo grupo de Sandra Azevedo, da UFRJ. Em 1996, ela descobriu que a morte de 76 pessoas numa clínica de hemodiálise de Caruaru, em Pernambuco, fora causada por toxinas de cianobactérias. Elas estavam na á gua usada pela clínica, trazida por caminhões pipas.

O grupo desenvolve duas tecnologias para eliminar cianobactérias. A primeira tem custo quase zero, para que possa ser usada por comunidades rurais. Os cientistas descobriram que a moringa elimina cianobactérias. Com o apoio da instituição britânica Engineering and Physical Science Research Council, eles investigam também a moringa na eliminação de coliformes fecais. Em testes, bastaram duas sementes por litro para limpar a água. A outra tecnologia é voltada para os reservatórios. Associada à Universidade Federal do Ceará e a universidades britânicas, Azevedo analisa a capacidade despoluente do dióxido de titânio em nanopartículas. Com a ação do sol, as nanopartículas degradam as toxinas. O método será testado no reservatório do Gavião, em Fortaleza, diz Sandra Azevedo.

SALGADO, SÃO FRANCISCO CAUSA HIPERTENSÃO

Doenças associadas à água afetam também o São Francisco. Ele já não bate mais “no mei do mar”, como cantava Luiz Gonzaga em “Riacho do Navio”. Junto à foz, o Velho Chico está cada vez mais salgado porque o mar é que invade o rio. Com a seca e a redução recorde do volume dos reservatórios dos últimos anos, a vazão do rio foi reduzida. Sem força, ele é que passou a ser invadido. Até o lençol freático foi salinizado e a população pagou com a saúde. Aumentaram os casos de hipertensão em comunidades do Baixo São Francisco.

Este mês a água estava salobra em Penedo, Alagoas, a cerca de 60 quilômetros da foz do São Francisco. Segundo um estudo da Universidade Federal de Alagoas, no ano passado, em certas localidades de Piaçabuçu, na foz do rio, o nível de sal na água chegou a cerca de 27 gramas por litro. O limite considerado máximo tolerável de salinidade é de 0,5 grama por litro.

Água de açude tem toxinas perigosas 1 2 3 4 5 de 5 Capitulo 1 Crise hídrica: solução passa por tarifa mais cara Capitulo 2 Cobrança de água captada dos rios Capitulo 3 Campanhas para evitar desperdício Capitulo 4 Preservação de matas ciliares  Capitulo 5 Aposta em tecnologias de reúso Crise hídrica: solução passa por tarifa mais cara Cobrança de água captada dos rios Campanhas para evitar desperdício Preservação de matas ciliares  Aposta em tecnologias de reúso Crise hídrica: solução passa por tarifa mais cara por Danielle Nogueira A única forma de enfrentar o problema da escassez de água e mudar o rumo do caminho que o Brasil vem trilhando é promover o uso racional desse bem, com planejamento e boa gestão das bacias hidrográficas. E a cartilha para se alcançar esse objetivo, dizem especialistas, inclui desde medidas mais complexas como a cobrança pela água captada dos rios e o desenvolvimento de tecnologias de reúso pelas indústrias até campanhas permanentes de conscientização que façam o brasileiro abandonar maus hábitos e se engajar na preservação dos recursos hídricos.

Para deixar de lado aquela mania de tomar banho sem fechar a torneira ou de lavar a calçada com mangueira, a maior parte dos estudiosos do assunto afirma que é preciso que o consumidor sinta no bolso as consequências do mau uso da água. A começar pelas grandes empresas, concessionárias de saneamento, fazendas e indústrias que captam diretamente dos rios. A cobrança pela chamada água bruta está estabelecida apenas em um quarto dos comitês de bacias hidrográficas no Brasil.

Pedro Jacobi, do Instituto de Energia e Ambiente da USP, considera “ridícula” a tarifa da água — de menos de R$ 0,02 por m3 em média. Ele diz que os políticos não querem arcar com o ônus da cobrança e lamenta a dificuldade de se calcular “o preço justo”. Mas ressalta que cobrar pela água não é o único instrumento para fomentar seu uso racional. Ele defende a integração das políticas públicas e a realização de campanhas de conscientização.

— Não podemos nos preocupar com a água apenas quando o nível dos reservatórios está no tornozelo. A expressão crise hídrica não pode ser retirada da política pública, e isso não é catastrofismo. Além disso, é preciso integrar a política de recursos hídricos com a do uso do solo, por exemplo. Boa parte dos rios tem sua vazão reduzida porque há desmatamento nas margens — afirma Jacobi.

Ex-presidente da Agência Nacional de Àguas (ANA) e atual presidente da Sabesp, concessionária que atende 368 cidades em São Paulo, Jerson Kelman diz que, para garantir a segurança hídrica, obras são essenciais para conectar bacias vizinhas e levar água a grandes centros, como a capital paulista, que protagonizou grave crise hídrica em 2015.

— Em São Paulo, a disponibilidade hídrica é de 143 mil litros por habitante/ano, muito abaixo do razoável. Não é porque não tem água em São Paulo, mas sim porque tem muita gente. É preciso fazer gestão da demanda e da oferta — afirma Kelman.

José Galizia Tundisi, coordenador do grupo de recursos hídricos da Academia Brasileira de Ciências e professor da Universidade Federal de São Carlos, frisa ainda a importância do reúso da água:

— Se a coleta e o tratamento de esgoto fossem mais disseminados, o Brasil poderia ter um programa forte de reúso da água, principalmente para a agricultura. Israel faz isso com sucesso. ( Colaborou Ana Lucia Azevedo )

Cobrança de água captada dos rios A possibilidade de cobrança da chamada água bruta está prevista na Lei das Águas, de 1997. Mas 20 anos após sua promulgação, ela foi instituída em apenas um quarto dos comitês de bacias hidrográficas existentes no país. Esse modelo é inspirado no sistema francês, em que o dinheiro arrecadado é investido nas bacias, em projetos como construção de represas, tratamento de água e outras medidas para melhorar a qualidade dos recursos hídricos e evitar problemas de abastecimento. Além do ritmo lento da implementação da fatura, há dificuldade de se determinar o valor justo pela água. No Brasil, a média é de menos de R$ 0,02 por mil litros captados.

Campanhas para evitar desperdício Especialistas apontam que as campanhas de conscientização devem ser permanentes. Com recomendações simples é possível economizar muita água. Por exemplo, ao fechar o registro de casa de tempos em tempos, conseguimos identificar vazamentos. De gota em gota, o volume de água que passa por uma rachadura de apenas 1 milímetro na tubulação pode chegar a 280 litros por dia, suficiente para abastecer uma família de cinco pessoas. Outra medida crucial é fechar a torneira quando nos ensaboamos. Dez minutos com o chuveiro ligado, considerando a torneira completamente aberta, consomem cerca de 160 litros de água.

Preservação de matas ciliares  Especialistas defendem que haja integração entre as políticas públicas de gestão de recursos hídricos e de uso do solo. De nada adianta, dizem, ter um bom planejamento da oferta e da demanda por água, se a vegetação ao longo do leito dos rios for devastada. Ela é fundamental para evitar o assoreamento e manter a vazão dos cursos d’água. O mesmo se aplica às áreas de recarga dos aquíferos. As plantas do entorno precisam ser preservadas para que esses lagos subterrâneos continuem a ser alimentados pela água que se infiltra no solo. São os aquíferos, especialmente os localizados no Cerrado, que mantêm os rios nos ciclos de seca.

Aposta em tecnologias de reúso O Brasil já tem tecnologia para captar a água usada em processos industriais, tratá-la, armazená-la e utilizá-la novamente, reduzindo o volume captado na natureza. O setor industrial já conseguiu economizar 8% do seu consumo em quatro anos, a partir do uso dessas tecnologias. Mas especialistas afirmam que a tendência tem que alcançar um rol maior de empresas e outros segmentos da economia, como a agricultura, que responde por quase 70% do consumo médio nacional. Estudiosos também apontam o desenvolvimento de tecnologias sofisticadas, como a dessalinização, como um caminho a ser percorrido pelas empresas.

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