George Saunders: 'Nem imagino o que Lincoln acharia de Trump' - EntornoInteligente

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RIO – George Saunders é um escritor diferentão. Católico tradicional nascido no sul dos EUA e praticante do budismo, mestre da narrativa curta e formado em Geofísica, ele demorou 20 anos e quatro coletâneas de contos para publicar o seu primeiro romance.

Sorte de principiante, não errou o alvo – seu “Lincoln no limbo”, que sai agora no Brasil pela Companhia das Letras, foi logo agraciado em 2017 com o Man Booker Prize, o mais importante prêmio literário de língua inglesa. Mas as 50 mil libras recebidas e o sucesso estrondoso não foram suficientes para dissipar um certo sentimento de inadequação neste texano de 59 anos.

CRÍTICA : Primeiro romance de George Saunders impressiona pelo magnetismo e pela intensidade

– É como se eu tivesse chegado à festa um pouco atrasado e com as roupas erradas – diz ele, em entrevista por telefone. – Além da formação científica, tive uma educação estranha. Aos 20 anos eu ainda estava lendo os clássicos russos em vez dos autores contemporâneos. Vim de uma perspectiva fora de moda. Acho que essa combinação fez de mim um estranho. Nem sempre de um jeito bom, e talvez por isso tenha demorado tanto para escrever um romance. ( Leia trecho de ‘Lincoln no limbo’, de George Saunders )

“Lincoln no limbo” é igual ao seu autor: diferente, experimental, deslocado. É composto por nada menos do que 166 narradores, entre fantasmas de uma guerra sangrenta, um presidente americano enlutado e dezenas e dezenas de documentos históricos (alguns inventados), que Saunders vai costurando ao longo das mais de 400 páginas.

‘É um ótimo sentimento não saber o que de fato estou escrevendo.’

– George Saunders Escritor Boa parte do romance se passa no limbo – ou o “bardo”, como está no título original, que os tibetanos identificam como o espaço intermediário entre a morte e o renascimento. É para lá que vai o amado filho de 11 anos do presidente americano, Willie Lincoln, vencido por uma febre tifoide em uma noite triste de 1862. Enquanto lidera a União na guerra civil americana, o presidente precisa lidar com o luto, visitando a cripta de mármore do filho no cemitério de Oak Hill, povoado por uma miríade de espíritos e corpos deformados. Presos no limbo, cada um deles têm sua razão para não completar a jornada até o outro lado – a de Willie é ajudar o pai a enfrentar suas dores e feridas na Terra.

ELOGIADO POR SEUS PARES

A originalidade de “Lincoln no limbo” salta aos olhos. Para o escritor americano Jonathan Franzen, o livro faz “o impossível parecer fácil”. A romancista Zadie Smith o definiu como “uma obra-prima”. Até Thomas Pynchon “saiu” da sua toca secreta para elogiar Saunders: “Uma voz graciosa, sombria, autêntica e divertida, que nos conta as histórias de que precisamos para atravessar estes tempos”, escreveu.

Mas, como Saunders falou antes, a estranheza também tem o seu preço. Toda fragmentada e constantemente exaltada, a leitura é um desafio para o leitor, que pode se perder entre os discursos dissonantes dos espíritos – sempre poéticos, tragicômicos ou grotescos, abraçando tanto o lirismo do Olimpo quanto a vulgaridade do vaudeville – e o mash up de registros históricos, que tentam reconstruir os momentos de Abraham Lincoln no mundo dos vivos. O próprio autor reconhece que, na sua escrita, é pegar ou largar: ou embarcamos de corpo e alma na história, ou abandonamos o barco nas primeiras páginas.

– Eu tenho o leitor em alta conta – diz Saunders. – Sempre imagino um leitor de alma plena. Quando escrevo, tento fazer com que ele pense que todas as coisas do livro estão realmente acontecendo. Quero vê-lo enfeitiçado. Acho que o processo é acreditar que o leitor pode te seguir em lugares interessantes, se você tiver fé e habilidade em guiá-lo. É como aquelas motos com acoplamento lateral, sabe? Estamos juntos na estrada, e quando eu virar à esquerda, o leitor vai comigo. Tem que ser assim até o fim, e não há saída fácil.

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‘Trump é esse outro lado do país: ignorante, grande, barulhento. Diria que Lincoln e Trump são duas manifestações dos EUA em diferentes estados de espírito.’

– George Sauders Escritor Durante o processo de escrita, o autor chegou a duvidar que estava mesmo escrevendo um romance – ou algo diferente. Sua esposa até brincou: “Acho que esse texto está com espaços em branco demais para ser um romance”.

– Na verdade, a parte da dúvida foi a mais divertida – lembra. – É um ótimo sentimento não saber o que de fato estou escrevendo. É como se você tivesse tentando fazer um animal se comportar como um cachorro e, de repente, percebesse que talvez não fosse um cachorro, então poderia ensiná-lo a fazer qualquer coisa. Mas decidi que iria chamar o livro de romance e que, se as pessoas discordassem, não iria me importar.

Visto como um livro altamente espiritual, “Lincoln no limbo” bebe tanto no catolicismo (a religião “oficial” de Saunders) quanto no budismo, que o escritor pratica informalmente há 20 anos. Ele se diz um “budista iniciante”, que não sabe muito sobre a religião, mas que teve o seu trabalho impactado por ela. A meditação, em especial, trouxe-lhe “caminhos positivos”.

– Talvez por causa da meditação, talvez por causa da idade, agora estou mais interessado em representar coisas que sejam esperançosas – conta Saunders. – O que é muito difícil. Mas acho que a meditação me fez ver que a negatividade não estava tanto no mundo, mas em mim mesmo. É uma escolha. Você vai numa festa e diz “Ah isso vai ser péssimo”, “essas pessoas são horríveis”… Isso faz mal para a mente. É excitante, através da meditação, pensar “espera aí, então eu não preciso ouvir essa voz”, e buscar mais profundamente todas as vozes que estão dizendo coisas positivas. Isso influenciou a minha ficção, inclusive “Lincoln no Limbo”. É uma história de fantasmas, e acho que é uma fábula favorável, positiva.

Há, de fato, muita positividade no livro, a começar pela figura do próprio Lincoln, que Saunders vê como “a melhor versão da América”. Nesse sentido, fica difícil não pensar no contraste – uma história como essa, circulando e colhendo louros no momento em que Donald Trump, o atual ocupante do Salão Oval, ofende minorias, incentiva o ódio e divide os americanos.

– Eu terminei o livro antes do Trump se candidatar – conta Saunders. – Mas para mim é como se ( pensa )… Não há nada no mundo que é puramente bom ou puramente ruim, sabe? Há elementos das duas coisas. Lincoln era a melhor América. Curiosa, decidida a olhar para os problemas e em tentar consertá-los… A gente fala em igualdade para todos, e Lincoln estava tentando chegar lá. Trump é esse outro lado do país: ignorante, grande, barulhento, que não diz a verdade e está apenas preocupado com o seu ego. Diria que Lincoln e Trump são duas manifestações dos EUA em diferentes estados de espírito.

Ele pensa mais um pouco e lembra da entrevista com a estrela pornô Stormy Daniels, que no domingo contou sua suposta relação extraconjugal com o presidente no programa “60 minutes”.

– Eu fico assim: “Uau, não posso nem imaginar o que Lincoln ia pensar disso” (risos). E do Trump, em geral. É engraçado, quando se fala do Trump de forma equilibrada fica parecendo insano.

Mais insano do que a guerra civil vivida sob Lincoln?

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– A Guerra Civil foi uma época louca. Muitas coisas insanas aconteceram, milhares de pessoas morriam todos os dias. Acho que nos demos tão bem por tanto tempo depois disso que até pessoas da minha idade não conseguem entender com que um país disfuncional se parece. Muita gente acha que, não importa o que elas façam ou digam, os EUA estarão bem. Mas as pessoas mais velhas, que lutaram guerras, ou que sabem o que significa uma revolução, ou o que acontece quando o sistema quebra, não acho que essas pessoas seriam muito cavalheiras com Trump. É uma geração de pirralhos mimados que acha que nada vai lhes acontecer e que se torna irresponsável em seus discursos e votos.

Admirado por sua generosidade e simplicidade, Saunders fez um discurso célebre, em 2013, para formandos da Universidade de Syracuse (Nova York), onde ensina escrita criativa. Suas palavras sobre a importância da bondade e de não focar no sucesso acabaram viralizando. Cinco anos depois, agora que é vencedor de um Booker Prize, mudou sua visão do sucesso?

– Depende como você define sucesso. Se é só o material, então é um caminho sem saída. Se você ganha o Booker Prize e vê o seu ego inflamar, isso é ruim. Mas você também pode ganhar o prêmio e pensar: “Isso é bom, mas deixe-me pegar o seu elogio e usá-lo para ter mais confiança, para melhorar o meu trabalho, e para ter uma plataforma maior e falar com mais pessoas sobre gentileza e compaixão”.

George Saunders: ‘Nem imagino o que Lincoln acharia de Trump’

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