Cão que ficou famoso após surrupiar livro de Elena Ferrante enfrenta percalços para ser adotado - EntornoInteligente

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NOVO HAMBURGO (RS) – O brasileiro adora cães : 30 milhões de lares nacionais têm ao menos um canino. Também adoramos furtos literários: o best-seller “A menina que roubava livros” vendeu aqui dois milhões de cópias, 25% do total mundial. Ao ser flagrado surrupiando uma obra de Elena Ferrante , semana passada, o cachorro Kustelinha uniu essas duas paixões. Resultado: fama instantânea.

No último dia 16, Kustelinha foi flagrado pela câmera da livraria da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo (RS). As imagens mostram o vira-lata, que vivia no campus, entrando na loja e abocanhando uma cópia de “Dias de abandono” (cuja protagonista, largada pelo marido, vive com dois filhos e… um cachorro).

‘Quando digo que vamos esperar um pouco até ele se recuperar, ganhar peso, mas que temos outros cachorros para adotar, a pessoa recua. Aí já percebo que só quer o Kustelinha pela fama.’

– Solange Ludwig Responsável pelo cão Na sequência, Kustelinha sai sem ser notado, deixa o livro escapar e tenta mordê-lo novamente, mas um estudante é mais rápido e entrega o exemplar à balconista. Postado na rede, o vídeo de 66 segundos viralizou. E a vida de Kustelinha, que tem entre 2 e 3 anos, mudou para sempre.

Pode-se dizer que o simpático meliante é vítima de seu próprio sucesso. Há mais de 30 interessados em serem seus donos, mas a ONG Projeto Amparo Animal tem cautela: não quer que alguém encantado com “o cão que roubava livros” o leve e, passado o entusiamo, o abandone.

– Muita gente me procurou pra adotar o Kustelinha – diz Solange Ludwig, dona de uma lanchonete e responsável pelo cão junto com Maria Regina Rodrigues, frentista e esteticista de cães, e Fátima Ferreira, desempregada. – Quando digo que vamos esperar um pouco até ele se recuperar, ganhar peso, mas que temos outros cachorros para adotar, a pessoa recua. Aí já percebo que só quer o Kustelinha pela fama.

Até onde se sabe, o cão agora famoso não era réu primário. No campus, todos dão como certo que ele já teria roubado jornais de alunos da Feevale. Talvez tenha dado sorte de ser cachorro: uma pesquisa do Ibope de fevereiro indica que metade dos brasileiros concorda com a frase “bandido bom é bandido morto”.

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– O crime tem sociologicamente uma questão moral presente. O objetivo que a pessoa tem com aquele roubo também faz diferença. Um exemplo disso é o roubo de livros e de comida – diz a coordenadora do curso de ciências sociais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Carla Diéguez.

MAU-AUS ANTECEDENTES

Nos tempos de ambulante universitário, o canino atendia por outro nome: Sorriso. O atual, Kustelinha, veio da magreza, fruto da alimentação errática – basicamente, restos de lanches dos alunos.

Segundo a reitora, Inajara Ramos, a universidade deve ter em breve curso de Veterinária e um hospital dedicado a animais. Mas o projeto ainda está no papel, de modo que os cães abandonados na Feevale não têm maiores cuidados. Alunos até já haviam acionado a protetora Fátima Rodrigues, que ano passado foi ao campus e aplicou um anti-inflamatório no animal.

Vale ressaltar que, pouco antes da fama, Kustelinha teve dono. Fátima conta que, há três semanas, foi procurada por uma pessoa (a quem não quis identificar) interessada no cão. A protetora foi até a Feevale, recolheu o cachorro e levou-o até o novo lar. Na última sexta, foi surpreendida com o vídeo de Kustelinha novamente no campus, roubando o livro. E voltou à universidade para buscar o cachorro.

PERFUME E GRAVATA

Hoje, Kustelinha não está mais só. Recebeu a repórter do GLOBO perfumado, de gravata e refestelado aos pés das três tutoras que o mantêm, Solange, Maria Regina e Fátima.

Mas não se pode ter tudo: o cão trocou a universidade por uma modesta casa de cinco cômodos, onde o aposentado José Venâncio Pereira divide espaço com outros 13 cachorros, todos tirados das ruas. São cem quilos mensais de ração, à base de doações.

A residência é o que se chama de casa de passagem: abriga animais até que sejam encontrados donos considerados à altura pelas tutoras. Há um termo de adoção a ser assinado, e elas, bem rigorosas, fazem visitas periódicas às casas dos futuros adotantes. Até mesmo incógnitas:

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– Já fiquei passando em frente a uma casa por semanas sem os futuros donos saberem. Era para checar se era mesmo tudo o que eles prometiam – conta Solange.

Apesar das dezenas de interessados em Kustelinha, a definição deve demorar. As tutoras querem escolher muito bem quem vai colocar as mãos no cachorro, que já teve uma experiência ruim de adoção. Agora, Fátima garante:

– Desta vez, nós vamos escolher muito bem quem vai ficar com ele.

Cão que ficou famoso após surrupiar livro de Elena Ferrante enfrenta percalços para ser adotado

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