BRASIL: Pai de Marielle escreve poema para filha e lembra sua história de luta e superação - EntornoInteligente

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RIO – A casa de Antonio e Marinete guarda muito da filha mais velha do casal. Lá estão fotos de todas as fases de sua vida, misturadas a imagens de Jesus Cristo e de santos católicos. Os retratos trazem recordações e saudade. Como se a filha estivesse viajando, pai e mãe ficam achando que, a qualquer momento, ela vai subir as escadas batendo palmas, anunciando sua chegada, perguntando da comida na mesa. Foi assim no domingo, dia 11 de março, quando Marinete fez macarronada com galinha. A filha almoçou e passou o dia com a família. No Domingo de Páscoa, Marielle Franco será uma lembrança.

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– Minha filha ia chegar muito longe. Não foi só nós que a perdemos. Foi o Brasil inteiro – afirma o pai, Antonio Francisco da Silva, de 67 anos, tentando traduzir um sentimento coletivo de perda que tem ecoado em gritos de “Marielle, presente!” em dezenas de manifestações país afora em homenagem à vereadora e ao motorista Anderson Gomes. – É bonito saber que minha filha agora dá nome a uma escola, a uma biblioteca, mas é doído. É uma homenagem que ninguém quer receber. Queríamos ela aqui.

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De família paraibana, Antonio é o segundo de seis filhos, todos nascidos no Complexo da Maré. Seu pai construiu a primeira casa de alvenaria da Baixa do Sapateiro, onde a família mantém um bar até hoje. É lá que o pai de Marielle encontra os amigos de infância. Desde que sua filha foi assassinada, no dia 14 de março, foi duas vezes ao local, mas nada mais parece fazer sentido para ele. Ao contrário da esposa, que se formou em Direito no ano em que os dois se casaram, em 1978, Antonio não completou os estudos: parou de estudar no ensino médio. É difícil para ele expressar sua dor. Mas esta semana o homem desabou: com insônia, levantou da cama, sentou-se à mesa da sala e começou a escrever um poema, algo que nunca havia feito antes.

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– Nunca vi ele daquele jeito, estava chorando tanto que fiquei preocupada e até chamei a vizinha. Toinho sempre foi muito reservado – afirma Marinete, um ano mais nova que o marido.

Orgulho. Antonio Francisco, pai de Marielle, olha o olha o álbum de fotos com as conquistas da filha, como a formatura de Ciências Sociais – Márcia Foletto / Agência O Globo Na casa onde vive com a esposa, a filha caçula, Anielle, e as duas netas, Mariah, de 2 anos, e Luyara, de 19 – filha de Marielle -, Antonio mostra alguns retratos de sua filha. Cada foto é motivo de orgulho para o pai: Marielle aos 9 anos, segurando uma sombrinha colorida, em um estúdio fotográfico de João Pessoa, onde ela e a irmã costumavam passar as férias escolares; Marielle aos 15, em sua festa de debutante para 300 pessoas, quando os pais gastaram R$ 15 mil para fechar o Clube de Bonsucesso; Marielle aos 26, ao concluir a graduação em Ciências Sociais na PUC-Rio, onde teve bolsa integral.

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Álbum de retratos de Marielle Franco Entrevista com os pais da vereadora Marielle Franco, assassinada há duas semanas no Centro do Rio Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Foto de Marielle Franco na infância Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Marielle e sua irmã caçula, Anielle, na infância Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Marielle e a mãe dela, que é formada em Direito Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Festa de debutante para 300 pessoas de Marielle, quando os pais gastaram R$ 15 mil para fechar o Clube de Bonsucesso Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Marielle aos 9 anos, segurando uma sombrinha colorida, em um estúdio fotográfico de João Pessoa, onde ela e a irmã costumavam passar as férias escolares Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Marielle com o ex-marido, quando se casaram. Ela foi abandonada pelo marido no dia 3 de janeiro de 2004, quando já estava na PUC-Rio Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Festa de casamento de Marielle, que se separou em 2004, quando já era mãe Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Arquivo de fotos de Marielle na casa dos pais, próximo à Maré Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo Foto da infância de Marielle Franco, vereadora assassinada junto com o motorista no Centro do Rio Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo 1 de 10 Anterior Próximo Marinete serve um suco de abacaxi e uma torta salgada. Ela fala olhando nos olhos e tocando nas pessoas. Alterna lágrimas e risos, com uma força surpreendente até mesmo para quem a conhece melhor que ninguém, Antonio.

– Todos estão me falando para fazer terapia. Ora, terapia de nordestino é trabalho. Ainda não consegui voltar ao normal, mas também não paro – fala.

Nascida na Paraíba, ela conheceu o marido em uma das vezes em que Antonio foi visitar a família. Quando Marinete se mudou para o Rio, começaram a namorar. Já moraram em diversos lugares na Maré e, desde 2001, vivem em um apartamento próximo da comunidade, pago em parcelas de R$ 420.

Sem perceber, às vezes Antonio fala sobre a filha no presente. Dia desses, estava sentado no sofá quando sentiu alguém ao seu lado. Ele não tem dúvida: era Marielle presente, essa filha que ele acompanhou por toda a vida, que começou a trabalhar aos 11 anos como auxiliar de secretária na Unisuam – à época, apenas Suam -, que fez um empréstimo para o ex-marido comprar uma Kombi de transporte alternativo: enquanto ele era motorista, ela o ajudava como cobradora, no trajeto da Baixa do Sapateiro a Bonsucesso, gritando na janela para atrair passageiros. Ao separar a foto de Marielle em seu casamento, seus olhos enchem d’água.

– Como pode falar que minha filha foi mulher de traficante? Olhem o casamento como foi lindo.

Marinete conta que a filha foi abandonada pelo marido no dia 3 de janeiro de 2004, quando já estava na PUC. A partir daí, em vez de se deprimir, ela desabrochou.

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– Minha filha sempre foi muito guerreira. Quando passamos maus bocados, eu e Toinho sem emprego, ela era só uma criança, mas nos ajudava a vender os sapatos que meu irmão fabricava. Cuidava da irmã, ia a reuniões de pais na escola – conta a mãe.

Antonio trabalhou na construção civil, em empresas de transporte, no comércio. Aposentado, pensa em voltar a trabalhar. Sem conseguir dormir, passou a escrever para a filha.

– Marielle era uma inspiração. E vai continuar sendo.

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