BRASIL: Filha de ex-presidente morto durante regime militar teme recuos no Chile - EntornoInteligente

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BUENOS AIRES – O processo judicial ainda não foi concluído e os acusados de terem assassinado seu pai continuam livres. Mas para Carmen Frei , filha do ex-presidente chileno Eduardo Frei (1964-1970), não existem dúvidas sobre a responsabilidade da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) na misteriosa morte do ex-chefe de Estado, eixo do livro “Magnicídio”, que Carmen lançou recentemente em seu país.

Veja também Piñera assume Presidência do Chile pela segunda vez com ‘mais maturidade’ Justiça chilena acusa filho de Bachelet de fraude Programação de teatro de 30/3 a 5/4 Chile rebate Bolívia e diz que não é obrigado a negociar saída ao Pacífico Como a maioria dos familiares de vítimas do regime militar, a filha de Frei está profundamente preocupada desde que Sebastián Piñera retornou ao Palácio de la Moneda, em 11 de março passado. Ela teme que a volta da direita ao poder leve o Chile a um retrocesso em matéria de direitos humanos e civis que possa, até mesmo, prejudicar as dezenas de casos que ainda aguardam uma condenação definitiva nos tribunais.

No livro, a filha de Frei, falecido em janeiro de 1982, relata em detalhe o drama vivido por sua família nos anos de chumbo, que terminou com a morte de seu pai numa clínica onde fora internado para operar-se de uma simples hérnia. Suspeita-se que Frei tenha sido envenenado. Carmen assegura que o plano para matar o homem que liderava a oposição a Pinochet e era visto como seu principal adversário político contou com a colaboração de médicos, enfermeiras e até mesmo do motorista da família que, anos depois, ela descobriu ser agente de Inteligência da ditadura. Seis pessoas já foram processadas, mas todos continuam em liberdade.

– O médico que estava à frente do caso era de confiança de meu pai – lembrou a filha de Frei, em referência a Patricio Silva Garin, que, segundo investigações judiciais, também atuou no Estádio Nacional, principal centro de torturas e execuções da ditadura de Pinochet.

O caso está em mãos do juiz Alejandro Madrid, em quem Carmen confia. O problema, disse ela, é que “o governo Piñera deverá nomear novos juízes”.

– Silva Garín vive uma vida normal e atreve-se até mesmo a dar entrevistas e dizer que não se arrepende de nada. Isso não pode continuar acontecendo no Chile – afirmou a filha de Frei.

RETROCESSO NA LEI DO ABORTO

A designação para altos cargos do Executivo de dirigentes que no passado defenderam a ditadura e, paralelamente, a adoção de medidas que vão na contramão dos avanços alcançados durante o segundo governo de Michelle Bachelet (2013-2017), colocaram ONGs, parentes de vítimas e partidos de centro-esquerda em estado de alerta.

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Ex-presidente chileno Eduardo Frei Montalva governou entre 1964 e 1970 – AFP Semana passada, o governo Piñera modificou o protocolo de implementação da Lei sobre o Aborto (aprovado em caso de risco de vida da mãe, estupro ou se o feto não for viável), considerada uma das conquistas sociais de sua antecessora. O novo presidente não anulou a lei à qual sempre se opôs publicamente, mas alterou sua regulamentação e, na prática, dificultou sua aplicação. Com o novo protocolo, as clínicas privadas poderão apelar à “objeção de consciência” para não realizar abortos.

– Vemos um claro risco de retrocesso, não somente em caso de leis como a do aborto, mas também em matéria de reforma educacional – comentou Carmen, em entrevista ao GLOBO.

Para ela, “pessoas que foram próximas a Pinochet e ao pinochetismo têm enorme influência no governo Piñera, e isso representa um perigo muito grande para os processos judiciais sobre crimes de lesa-Humanidade”.

– Este governo e seus colaboradores querem que tudo fique no passado, querem conceder prisão domiciliar para os condenados. Nossa resposta é simples: a dor não se esquece. O povo precisa saber a verdade para avançar, e o país precisa saber da verdade para não repetir erros passados – apontou a filha de Frei, que, aos 79 anos, ainda milita no Partido Democrata Cristão e luta para que a centro-esquerda chilena recupere o vigor de outras épocas.

A derrota nas presidenciais de 2017 aprofundou as diferenças e divisões dentro da aliança de partidos que comandaram a redemocratização do Chile após a ditadura. Pela primeira vez, a antiga Concertação entre socialistas e democratas cristãos, que posteriormente passou a chamar-se Nova Maioria (com a incorporação do Partido Comunista), não teve um candidato único numa eleição presidencial e isso terminou favorecendo a candidatura de Piñera.

Hoje, Carmen e toda a centro-esquerda observam com temor e angústia os primeiros passos do presidente. A posição de Piñera e de seus ministros em relação a militares envolvidos em crimes da ditadura nunca foi um segredo no Chile, e a sensação entre familiares de vítimas como Carmen é de que o Palácio de la Moneda fará o que for necessário para protegê-los.

Em seu último dia como presidente do Chile, Bachelet ordenou fechar a prisão militar de Punta Peuco, onde todos os condenados por violações dos direitos humanos são tratados com privilégios. Mas tensões internas no governo impediram que a decisão se tornasse realidade e com Piñera no poder Punta Peuco continuará funcionando e beneficiando ex-repressores.

– Essa prisão é um escândalo. Os detentos têm TVs, computadores e são levados para o hospital militar por um simples resfriado – assegurou Carmen.

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Confirmando que seu segundo governo terá um perfil clássico de direita, com resquícios do passado mais nefasto da Histórica chilena, o presidente designou até mesmo ex-funcionários da ditadura, como Alberto Cardemil (subsecretário do Interior durante o regime militar), em cargos importantes, neste caso, no Ministério da Fazenda.

– Nos parece lamentável, estamos falando de alguém que esteve diretamente relacionado à ditadura de Pinochet – declarou o presidente do Partido Socialista, Álvaro Elizalde.

A hora, enfatizou Carmen, é de “botar a boca no trombone”: – Não vão nos calar, queremos que digam a verdade. Assim como escrevi este livro, posso contar muitas coisas. Não abandonaremos nossa luta, não somente pelo meu pai, mas por todos os que sofreram.

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Con Información de OGlobo

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