BRASIL: Minuto de silêncio
 Inicio > Internacionales | Publicado el Viernes, 02 de Diciembre del 2016
BRASIL: Minuto de silêncio


OGlobo / 02/12/2016 5:34 Minuto de silêncio A maior semelhança entre futebol e ópera está nas emoções que os dois despertam Heleno de Freitas diz, no filme de José Henrique Fonseca, que todo jogador de futebol deveria ouvir uma ópera antes de entrar em campo, para entrar no clima do jogo. Baita analogia. Pode-se pensar as partidas como óperas em dois atos. Ou três, se houver prorrogação. Ou quatro, se o drama prosseguir até a disputa por pênaltis. Pode-se pensar a partida de futebol como um conjunto de recitativos, ou diálogos semicantados que servem para fazer a bola rodar; de árias, ou jogadas individuais; de duetos, ou tabelinhas; de trios, ou triangulações… Além do coro das arquibancadas, claro.

A maior semelhança entre futebol e ópera, porém, está nas emoções que os dois despertam em tanta gente: são o esporte mais popular do planeta e o gênero de música clássica mais popular do planeta. Não é nem preciso gostar de bola para se arrepiar com cenas que ocorrem dentro e em torno do gramado como se estivéssemos diante do coro dos escravos hebreus do "Nabucco", de Verdi… O entusiasmo da chamada "Muralha amarela", espaço para 25 mil pessoas torcerem de pé no estádio do Borussia Dortmund. A torcida do Liverpool cantando "You’ll never walk alone" antes de cada partida.

Não há uma única vez em que assista à torcida do Liverpool cantando "You’ll never walk alone" em que eu não chore. Aquilo é sempre de uma beleza extraordinária. Na terça-feira, antes do jogo do Liverpool contra o Leeds pelas quartas-de-final da Copa da Liga Inglesa, o coro da arquibancada foi interrompido por um aviso do locutor do estádio: senhoras e senhores, haverá um minuto de silêncio, demarcado pelo apito do árbitro, em memória dos jogadores da Chapecoense. Imediatamente fez-se silêncio. Seguiu-se a ele uma salva de aplausos solidários. Não chorei: solucei.

Nelson Rodrigues escreveu que no Maracanã vaia-se até minuto de silêncio. Em todos os estádios do Brasil vaia-se até minuto de silêncio. Contudo, os torcedores sabem que há silêncios e silêncios. O pesar pela morte de um sócio do clube é distinto do pesar pela morte de um ex-jogador do clube ou de um craque de qualquer outra agremiação. As arquibancadas respeitaram o minuto de silêncio em homenagem a Carlos Alberto Torres, falecido no final de outubro. Respeitaram também o silêncio em memória das 242 vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, ocorrido em janeiro de 2013.

No dia em que se voltar a jogar uma partida oficial de futebol no Brasil, tenho certeza que os bons torcedores respeitarão o minuto de silêncio e baterão palmas com vontade na homenagem aos mortos no acidente aéreo com a Chapecoense. Não é um consolo, porque nada consola, mas os jogadores da equipe alviverde do oeste de Santa Catarina nunca experimentarão aquela segunda morte, que é o esquecimento. Estarão preservados, como os colegas do Torino de 1949, os do Manchester United em 1958 e os do Alianza Lima em 1987. Sobre seus conterrâneos, Morrissey escreveu uma canção sofrida, "Munich air disaster 1958": "Nós os amamos/ Nós os choramos/ Azarados rapazes de vermelho…". Troque-se vermelho por verde, e temos a Chapecoense.

A comoção nacional pela morte dos jogadores é tamanha porque eles eram colegas de lazer do brasileiro médio, apaixonado por futebol, time de coração à parte. Podíamos nem saber, mas éramos próximos de Danilo, Kempes, Cléber Santana, Dener Assunção. Nós éramos próximos do técnico Caio Júnior. Todo sábado, todo domingo, nós tomávamos cerveja com eles. Nós sentimos suas mortes. E se esporte é vida, como dizia um velho slogan da TV Globo, onde encaixar o desastre acontecido na Colômbia?

A comoção não é só nacional, é mundial. Tão violento, corrupto e medíocre nos últimos tempos, o futebol reinventa sua dignidade nas manifestações de solidariedade e carinho à Chapecoense e aos familiares dos jogadores e membros da comissão técnica. Na reprodução da hashtag #ForçaChape nas contas de clubes e craques estrangeiros em redes sociais, sincera e comovente. Na Torre Eiffel, iluminada em verde e branco. No pedido do adversário na final Sul-Americana que nunca será disputada, o Atlético Nacional, de Medellín, para o título de campeão ficar com a equipe brasileira, gesto de uma nobreza perturbadora. A solidariedade emociona tanto quanto a tragédia em si.

O acidente já seria terrível se a delegação da Chapecoense estivesse viajando sozinha no avião. A presença de 21 jornalistas a bordo, dos quais apenas um sobreviveu, aumenta a dor daqueles que os liam, ouviam ou assistiam. Para os colegas, então, as mortes de gente tão jovem e entusiasmada por seu trabalho são indizíveis por mais que se fale ou se escreva sobre elas. Eu penso muito, em particular, em Paulo Júlio Clement, amigo irônico nas redações do "Jornal do Brasil" e do GLOBO, penso em sua mulher, também jornalista, e em seu filho de 7 anos de idade. E gostaria de dizer-lhes, como a torcida do Liverpool diz aos seus jogadores antes dos jogos, que eles jamais caminharão sozinhos. PJ está em todos que tivemos o prazer de com ele conviver.

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