BRASIL: Porto Maravilha: os contrastes de uma obra bilionária cercada pela pobreza e pelo abandono
 Inicio > Política | Publicado el Domingo, 17 de Septiembre del 2017
BRASIL: Porto Maravilha: os contrastes de uma obra bilionária cercada pela pobreza e pelo abandono


Jornal do Brasil / "Atravessar certas ruas aqui na Zona Portuária é como se a gente estivesse entrando em um outro país. Um país que não foi feito para a gente, sabe?", contou a estudante do ensino médio Kátia Gonçalves. Moradora da Gamboa, a aluna da rede pública tem uma relação dúbia com as obras do Porto Maravilha: ao mesmo tempo em que admira a beleza do Boulevard Olímpico e da Praça Mauá revitalizada, ela não consegue deixar de notar que as mudanças não parecem ter contemplado os próprios moradores e comerciantes da região, que compartilham em boa parte da mesma mentalidade de Kátia.

A sensação da jovem de que a Zona Portuária se tornou um emaranhado de fronteiras e desigualdades é compartilhada pelo comerciante Elídio da Silva, proprietário de uma loja de materiais de construção próxima à Avenida Venezuela. "Aqui no bairro temos duas condições diferentes. Da Avenida Venezuela para lá (área do Boulevard Olímpico) mudou completamente, da Venezuela para cá, é o que era antigamente. Do lado de lá da avenida é tudo é mais limpo e mais seguro, com policiamento constante. De lá para cá já é uma bagunça. Você nota a diferença, mas não sabe exatamente por que razão", afirmou, irônico.

A obra do Porto Maravilha, que afetou principalmente os bairros da Gamboa, Santo Cristo e Saúde, é considerada a maior parceria público-privada da história do país, com custo de mais de R$ 8 bilhões. Um dos objetivos incluídos no projeto inicial estabelecido na Operação Urbana Consorciada da Região do Porto incluía "qualificar o sistema de mobilidade urbana", que envolveu a introdução do Veículo Leve sobre Trilhos, o VLT.

Porém, segundo Diego Rodrigues, funcionário de uma loja de tintas na rua Camerino, o trânsito na região "tem engarrafado muito". "O trabalhador está com muitas dificuldades de chegar aqui com extinções de linhas… Já o VLT, na minha opinião, é uma tragédia anunciada, esperando para acontecer. O fato dele ser silencioso demais, de não ter nenhuma cancela para evitar a travessia por onde passa e o jeito confuso que ele atravessa o trânsito em alguns locais por aqui… É impressionante não ter acontecido nada ainda", disse.

A rejeição ao VLT é uma constante entre os entrevistados pelo JB. " O problema aqui é o transporte, que não tem. Colocaram esse VLT que só serve a meia dúzia, só para turista", contou Jorge Pereira, vigia de uma garagem e morador da região há 40 anos.

Um pouco abaixo, ainda na Rua Camerino, uma loja de imóveis para escritórios chama atenção, com uma faixa gigante escrita "Queima de estoque, preço de custo". Leonel Gael, dono da loja, disse que seu negócio está à beira de fechar por causa da crise no país. Porém, segundo ele, a gota d’água pode ter sido as mudanças impostas no trânsito pela gestão do ex-prefeito Eduardo Paes na área.

"Não posso mais passar por aqui com caminhão. Colocaram um radar nessa rua e toda vez que entrava com o carro aqui, era multado. Tive de vender o caminhão. A justificativa deles era de tirar os veículos pesados para as Olimpíadas, mas a proibição ficou permanente e isso inviabilizou de vez meu trabalho. Acho que vou sair daqui. O negócio está muito ruim. Não sei como vai ficar", desabafou o comerciante.

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>>  Porto Maravilha: o fracasso de um projeto bilionário que excluiu os menos favorecidos

De acordo com Edson Melo, proprietário de uma loja de bicicletas na Avenida Barão de Tefé, a piora no comércio na região se deve também à crescente sensação de insegurança nas ruas da Zona Portuária. "Acho que isso se deve a essas bocas de fumo por aqui. As pessoas ficam com medo. O que melhorou aqui foi só mesmo em termos de boniteza, para os turistas. Mas para deixar abandonado e o lixo começar a tomar conta não está difícil", explicou.

Moradora da Gamboa, Andressa Viana também relatou o aumento da insegurança na região. "Essa reforma não adiantou nada. Por aqui, pertinho do Boulevard Olímpico, continua tendo assalto, ali na frente do Hospital dos Servidores do Estado (que fica na Avenida Venezuela)", disse Andressa.

Para Edson, outra preocupação é o aumento dos preços de alugueis para abrir um comércio na região. "Além de tudo, o aluguel por aqui ficou mais caro. Tem muito comércio que já está pressionado por causa da crise, e tem que fechar com o aumento dos preços", ressaltou.

Marcelo Cardoso, outro jovem que acompanhava Kátia na saída da escola, também relatou a mesma sensação de se estar em um lugar marcado por contrastes, ao caminhar pelo Porto Maravilha. "Algumas ruas aqui são tipo uma fronteira. De um lado tem polícia, do outro tem sujeira", resumiu.

* do projeto de estágio do JB



BRASIL: Porto Maravilha: os contrastes de uma obra bilionária cercada pela pobreza e pelo abandono

Con Información de Jornal do Brasil

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